O dinheiro não nasce nas árvores: como explicar às crianças de onde vem o dinheiro?
Ensinar o valor do dinheiro às crianças não tem de ser complicado. Descubra como explicar de forma simples e lúdica, e por que isso pode mudar tudo no futuro deles.
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O dinheiro não nasce nas árvores: como falar de dinheiro com os seus filhos (sem que eles percam o interesse nos primeiros dois minutos)
Já disse esta frase? "Dinheiro não nasce nas árvores." A maioria dos pais já a disse.
O problema é que, para uma criança de seis anos, faz tanto sentido como dizer-lhe que o Wi-Fi não vem do ar. A frase fecha a conversa antes de ela começar.
E se em vez de fechar, abrirmos? E se a próxima vez que a criança pedir aquele brinquedo na caixa de supermercado, aproveitarmos para explicar, com calma e sem pressão, de onde vem o dinheiro e o que acontece quando o gastamos?
Não é uma conversa difícil. É uma das mais importantes que pode ter com os seus filhos — e este artigo mostra-lhe como fazê-la.
Porque é que vale a pena ter esta conversa cedo?
A relação que os adultos têm com o dinheiro, se poupam ou não, se gastam por impulso, se conseguem dizer não, forma-se muito antes de serem adultos. A investigação nesta área é bastante clara: os hábitos financeiros começam a moldar-se entre os seis e os doze anos.
Isso não significa que temos de sentar as crianças à mesa e fazer uma aula de economia. Significa que as conversas do dia a dia, as pequenas escolhas, as explicações simples … tudo isso vai ficando.
Quando uma criança percebe que o dinheiro vem do trabalho, que é limitado, e que gastá-lo numa coisa significa não o ter para outra, está a aprender algo que muitos adultos ainda não interiorizaram completamente.
A noção de que esforço e recompensa estão ligados
A capacidade de adiar uma gratificação por um objetivo maior
A diferença entre querer e precisar
A base para planear e poupar com intenção
O ciclo mais simples que existe: trabalho, rendimento, escolhas
Se tivesse de explicar de onde vem o dinheiro em três palavras, seriam estas: trabalho, rendimento, escolhas.
Parece simples porque é. E é exatamente por isso que funciona com crianças.
"O pai e a mãe vão trabalhar. Trabalhar leva tempo e energia, e em troca recebemos dinheiro. Com esse dinheiro, escolhemos o que comprar: comida, casa, escola, roupa. E quando escolhemos uma coisa, estamos a dizer não a outra porque o dinheiro tem limite."
Pode também contar uma pequena história. As crianças entendem muito melhor através de narrativas do que de explicações abstratas.
A Maria gosta de fazer pulseiras. Um dia, fez várias e vendeu às amigas da escola. Com o dinheiro que ganhou, comprou mais material para criar novas e ainda guardou uma parte para comprar o livro que queria há semanas. Trabalhou, ganhou, e escolheu.
Três atividades que tornam o conceito concreto
Explicar é um começo. Mas as crianças aprendem a fazer, não só a ouvir. Aqui ficam três ideias simples que pode pôr em prática esta semana.
1. A lojinha de casa Monte uma mini loja em casa com objetos reais ou brinquedos, cada um com um preço. Dê à criança moedas fictícias, ou mesmo moedas reais de baixo valor, e deixe-a comprar, vender, fazer troco. Em vinte minutos de brincadeira, absorve o que muitos adultos levaram anos a perceber.
2. O "salário" simbólico Atribua um valor fixo a tarefas simples. Arrumar os brinquedos vale 1 euro. Pôr a mesa vale 50 cêntimos. No final da semana, a criança conta o que ganhou e decide como gastar ou guardar. Não é sobre o valor, é sobre a relação entre fazer e receber.
3. Teatro ou fantoches Encenar situações do quotidiano, como por exemplo: ir às compras, receber o ordenado ou pagar a renda, funciona muito bem com crianças mais novas. Podem ser os fantoches a ter dúvidas e a fazer perguntas. É o mesmo conceito, mas em modo brincadeira.
As palavras que usamos fazem diferença — mais do que pensamos
Há uma diferença enorme entre "não temos dinheiro para isso" e "podíamos comprar isso, mas escolhemos guardar para as férias". A primeira fecha. A segunda ensina.
A linguagem que usamos à volta do dinheiro molda a forma como as crianças o vão perceber durante a vida. Não precisa de ser perfeita, só tem de ser honesta e intencional.
Em vez de: "Não temos dinheiro para isso" → "Podíamos comprar, mas escolhemos poupar para as férias."
Em vez de: "Não podes ter tudo" → "Esse brinquedo é giro, mas já tens muitos parecidos. Vale a pena?"
Em vez de não explicar: → "O dinheiro é como o tempo: quando o gastamos, não volta. Por isso escolhemos bem."
Não tem de ser uma conversa complicada
A literacia financeira não começa num banco, nem numa cadeira universitária. Começa numa tarde em casa com moedas em cima da mesa e uma criança cheia de perguntas.
O que plantamos hoje, nas conversas, nos exemplos, nas brincadeiras é o que vai crescer. E ao contrário do dinheiro, isso sim nasce em casa.
Fica a dia!